Minha avaliação: ★★★★⯪

1. Pluribus foi uma surpresa muito boa. Como alguém que leu Admirável Mundo Novo uma porção de vezes e transformou o clássico de Huxley em TCC de Letras, me deparei com pontos de contato entre as obras o tempo inteiro. Se olharmos do ponto de vista da “desuminazação”, as duas obras giram em torno das mesmas perguntas (ainda que eu considere a discussão a partir de Huxley mais rica, talvez por tocar em pontos que a série não alcançou, como a questão do trabalho, da eugenia e da segregação).

2. Assim como Black Mirror, a série desenha um cenário inicialmente sedutor, nos permitindo imaginar um mundo à nossa disposição, conforme a nossa vontade, para depois nos jogar algumas verdades na cara. Nos primeiros episódios, eu cheguei a ficar indignado com a protagonista, perguntando para a minha esposa “por que a Carol não consegue relaxar e curtir um pouco”. Quem assistiu a temporada até o fim sabe que isso eventualmente acontece (e a “grande ficha” que cai depois).

3. Os diferentes personagens imunes ao “vírus” da “felicidade” colocam em jogo justamente algumas das diferentes opiniões em relação a esse cenário. Quem você seria se o conflito da série ocorresse na vida real? Acredito que poucos de nós agiríamos como Carol (ou ainda como o colombiano Manousos). Eu mesmo passaria um bom tempo “me divertindo” antes de ser acometido por qualquer crise existencial (isso se ela chegasse em algum momento). E eu nem estou nas camadas mais baixas da pirâmide social, entende?

4. A série tem um ritmo lento, porém consistente. Para quem não se interessa tanto pelas perguntas que a narrativa propõe, pode soar chata, arrastada. Não julgo, mas achei interessante o bastante para me prender.

5. Uma das perguntas mais interessantes que a série propõe é: qual liberdade existe quando não existe alternativa? “Eles” dizem o tempo todo que “seu corpo é seu” e que “nenhum deles lhe fará mal”, mas a ordem que se instaura a partir dos eventos do primeiro episódio gera uma situação em que se torna praticamente impossível sobreviver sem depender, de alguma forma, d’Eles.

6. Quando olhamos por essa perspectiva, é muito difícil não traçar um paralelo com o “capitalismo de plataforma” ou com a “era das LLMs”. Você é livre para trabalhar, mas existe algum mercado que não sofra influência das plataformas e das big techs? Você não é obrigado a utilizar a I.A., mas ainda existe mercado para quem prefere trabalhar sem ela? Existe uma coerção muito sutil, mas igualmente violenta: “quando você perceber como é maravilhoso…”.

7. As pessoas interpretam a série a seu bel-prazer. Ótimo. Eu encarei como uma boa metáfora para as LLMs. Tem gente que viu a coisa toda como uma crítica anticomunista (provavelmente por causa de meia dúzia de falas isoladas). Eu mesmo enxergo uma crítica mais anticapitalista do que qualquer outra coisa. Ao mesmo tempo, falar de direito à individualidade e à infelicidade gera pontos de contato com o conservadorismo. Todas essas interpretações possíveis só reforçam a qualidade da série.

8. Ainda que a metáfora para as LLMs seja possível, provavelmente não foi intenção do autor da série. A história começou a ser escrita há 10 anos, bem antes do ChatGPT.

9. “Não podemos ler sua mente”, dizem Eles. Mas eles sabem tudo que é preciso saber, inclusive sobre cada um de nós. Assim como a IA. E o que Eles (e as empresas proprietárias das tecnologias de IA) fazem com isso?

10. Assim como em Admirável Mundo Novo, a arte parece perder sua importância na realidade de Pluribus. O interesse d’Eles no que Carol escreve tem muito mais a ver com Carol do que com o que está no papel. É muito emblemático quando Zosia diz que gosta tanto de Winds of Wycaro quanto de Shakespeare e que “Amamos seus livros. Eles são uma expressão de você. E amamos você”. Me faz pensar bastante em como relacionamos arte/artista nos dias de hoje – e no peso que damos às pessoas por trás das obras. Não sei o que é certo ou errado nesse caso, mas é uma boa provocação.

11. Não quero, com minhas notas, fazer a série parecer chata ou dramática demais. Longe disso. Ela introduz cenas de alívio cômico ácidas e inteligentes com bastante frequência. Tudo está na dose certa.

12. O que me pegou demais na série – e que me fez repensar MUITO minha relação com as LLMs no meu dia a dia – foi a fala de Manousos: “Você não pode me dar nada porque tudo o que você tem é roubado”. Foi um “soco”.

13. Se há pontos negativos? Eu gostaria que a primeira temporada tivesse se encerrado em si mesma, mesmo com planos para uma segunda temporada. Sei que isso é um “padrão” para a TV, mas é algo que sinto que precisa mudar. Nós temos uma infinidade de opções de entretenimento, muito mais do que podemos consumir em nosso tempo livre, e a um preço muito menor do que há pouco mais de uma década. Sei que isso tem reforçado temporadas mais curtas, ganchos ao fim de episódios e temporadas e outras artimanhas para sequestrar nossa atenção e nos manter interessados, mas ficaria feliz se esse cenário, na contramão da tendência, desse mais liberdade para que criadores se preocupassem um pouco mais com a costura de seus trabalhos e menos em nos manter presos à TV.

14. Uma coisa que ficou ecoando na minha cabeça: a coisa começou a se espalhar com a mordida do rato, certo? Então o rato estava movido pelo imperativo biológico de espalhar o “vírus”. Isso significa que ele também estava afetado pela coisa toda, certo? Consequentemente, ele também faria parte dessa consciência coletiva? Ou ele poderia contaminar outros ratos – ou outros animais -, formando uma consciência coletiva própria? Aquele rato saindo vivo do laboratório foi a única grande lacuna que me pareceu acidental na série.

15. Sobre as atuações, não há o que discutir: impecável.

16. “Olá, Carol. Esta é uma gravação. Após o sinal, deixe um recado pra pedir o que estiver precisando. Faremos de tudo pra providenciar. O que sentimos por você não mudou, Carol. Mas, depois de tudo que aconteceu, precisamos de espaço. *bipe

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Autoria

Iago Möller é escritor e criador de conteúdo, diretor de marketing, mestrando em Indústria Criativa, licenciado em Letras. Escrevo sobre carreiras criativas, comunicação, arte e entretenimento, cultura e tecnologia.